Travessia: “da noite em meu viver” a “vou querer amar de novo”

A letra da música Travessia, Milton Nascimento e Fernando Brant, com frequência é utilizada para descrever a origem de um adoecer psíquico – uma perda -, seu tratamento – muito tenho que falar – e elaboraçao – vou querer amar de novo.

É uma bela  uma metáfora de um tratamento psicoterápico. Farei alguns comentários sobre este processo. Vejamos:

O adoecer

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar

O adoecer psíquico com frequência está associado a perdas. O abandono de um cônjuge, namorado, amante (…) são perdas clássicas. Porém, a perda de familiares, a perda do poder, a perda do animal de estimação, a perda da beleza, da saúde e da moradia geram desfecho semelhante.

A perda também pode ser da ilusão do que se era, ou se imaginava ser, ou do que seria ou queria ser. A perda de ideologias, fé e outras crenças também abrem buracos na alma. Perdas dos problemas que protegiam e serviam de álibi para imobilidade e procrastinações. Também, elas podem ser de quem dependemos ou de quem dependia de nós. Emocionalmente até certos ganhos podem ser vividos como perdas.

Todas estas perdas denunciam fraquezas; geram dores, lamento e vivências de falência. A casa/mente que nos dava guarida torna-se uma ameaça, não se reconhece mais em seus pensamentos e afetos. É a solidão em meio à multidão. Paradoxalmente, a falência autoriza a busca de um interlocutor para se falar. O grito de dor alivia a mesma e convida o outro para acompanhá-lo, ouvi-lo, segurá-lo, ajudá-lo…

O tratamento

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu canto, vou querer me matar

A caminhada inicial não é fácil, mas a esperança estimula o falar. As dificuldades e o medo de novas dores impedem o sonhar e o contato com os desejos. Perde-se o combustível afetivo para novas descobertas e conquistas.

O aconchego da miséria vira uma opção para sobrevivência. Como desejar se a ameaça de um novo vendaval abandono/perda ainda está presente no horizonte estreitado pela dor. A caminhada/terapia/análise dá medo, às vezes, aterroriza. Voltar para o silêncio da dor é uma opção sempre presente.

O suicídio da dor, da humilhação, da desesperança é a última carta na manga. O suicídio como vingança não pode ser desprezado; o suicídio como forma de denúncia do homicídio sofrido pela alma; o suicídio como fantasia de passagem para um novo começo. O suicídio como eutanásia de uma sensação de vazio incurável.

A terapia/análise não é um processo de extirpação de um tumor; é, isto sim, um processo de debridação/drenagem de um abcesso. Durante o processo, o aspecto da lesão pode parecer mais feio do que antes de mexer nele.

Elaboração

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Quando se sobrevive a toda dor, olha se para o futuro; não, o passado não é esquecido, mas se conquista uma visão mais adequada sobre ele. Excessos são aparados. A desesperança, os pesadelos e o vazio dão lugar à esperança e a novos sonhos e, sim, também a novos medos, mas a medos protetores e não condenatório-paralisantes.

Novos investimentos afetivos são viáveis, entregar-se a possibilidade de amar não ameaça mais. Não se precisa ter certeza que dará certo; pois se não der, já se sabe que se sobrevive.

A experiência viabiliza um investimento no viver ao invés do sobreviver. Apropria-se da construção e da responsabilidade pela sua vida. A ideia do “não vou sofrer” é a esperança que agora se pode enfrentar novas intempéries sem o risco de ficar igual. Passar pelo processo – dor/angústia/terapia/análise – deixa como herança a conquista de novos instrumentos mentais e a certeza que sempre há um albergue/terapeuta/análise que podemos recorrer quando novas tempestades ameaçarem/danificarem o telhado da nossa mente/casa.

*Créditos ao Dr. Alfredo Cataldo Neto, que foi a primeira pessoa que eu ouvi fazer uma apresentação e depois uma publicaçao, nas quais citava essa música como metáfora de um tratamento.

Sobre Hemerson Ari Mendes

Psicanalista (Sociedade Psicanalítica de Pelotas – Febrapsi - IPA), médico psiquiatra (UFPel), mestre em saúde e comportamento (UCPel). É diretor da Clínica Ser e durante 18 anos foi professor de Psiquiatria e Psicologia Médica na Faculdade de Medicina UCPel, atualmente, licenciado. Sim, também, disgráfico.

Publicado em 11/11/2012, em Psicanálise e psiquiatria, Saúde e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. olga Argout

    Sábias palavras…

  2. Rossana Mattar

    Excelente texto!! Como sempre me identifiquei. O passado estara sempre presente em nossas vidas, mas com a esperanca de novos dias ,novas amizades, amores e objetivos. Se assim nao fosse estaria viva, porem catatonica, sem esperanca. Gracas a Deus a esperanca nos propulsiona a tentar novas coisas e acreditar q nada esta perdido e que a gente ,mesmo com ajuda, sem ajuda, como for possivel chegaremos la, em uma vida q traga um minimo de paz, alegria e o aconchego do nosso ninho. Obrigada Ari. (nao repare q meu computador nao tem acento).

  3. mara rodrigues

    Lindo, emocionante,verdadeiro! Meu caminho é de pedras, como posso sonhar? Estou só e não resisto, muito tenho o que falar! Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer, vou seguindo pela vida me esquecendo de voce. (?)

  1. Pingback: O que é ser psiquiatra/psicoterapeuta | Disgráfico

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