Travessia: “da noite em meu viver” a “vou querer amar de novo”

A letra da música Travessia de Milton Nascimento e Fernando Brant com frequencia é utilizada para descrever a origem de um adoecer psiquico- perda, o tratamento-muito tenho que falar e elaboraçao – vou querer amar de novo. A letra pode ser pensada como uma metáfora de um tratamento psicoterápico. Farei alguns comentários sobre este processo. Registro os créditos ao Dr. Alfredo Cataldo Neto, que foi a primeira pessoa que eu ouvi fazer uma apresentação e depois uma publicaçao, nas quais citava essa música com tal finalidade.

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar

O adoecer psíquico com muita frequência está associado com perdas. O abandono de um cônjuge, namorado, amante (…) são perdas clássicas. Porém a perda de familiares, a perda do poder, a perda do animal de estimação, a perda da beleza, da saúde e da moradia geram desfecho semelhante. A perda também pode ser da ilusão do que se era, ou se imaginava ser, ou do que seria ou queria ser. A perda de ideologias, fé e outras crenças também abrem buracos na alma. A perda dos problemas que protegiam e serviam de álibi para imobilidade e procrastinações. A perda pode ser de quem dependemos ou de quem dependia de nós. Emocionalmente até certos ganhos podem ser vividos como perdas.
Todas estas perdas denunciam uma fraqueza, geram uma dor, um lamento e uma vivência de falência. A casa/mente que nos dava guarida torna-se uma ameaça, não se reconhece mais em seus pensamentos e afetos. É a solidão em meio à multidão. Paradoxalmente, a falência autoriza a busca de um interlocutor para se falar. O grito de dor alivia a dor e convida o outro para acompanha-lo, ouvi-lo, segurá-lo, ajuda-lo…

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu canto, vou querer me matar

A caminhada inicial não é fácil, mas a esperança estimula o falar. As dificuldades e o medo de novas dores impedem o sonhar, o contato com os desejos, algo que tira o combustível afetivo para novas descobertas e conquistas. O aconchego da miséria vira uma opção para sobrevivência. Como desejar se a ameaça de um novo vendaval abandono/perda ainda está presente no horizonte estreitado pela dor. A caminhada/terapia/análise dá medo, às vezes, aterroriza. Voltar para o silêncio da dor é uma opção sempre presente.
O suicídio da dor, da humilhação, da desesperança é a última carta na manga. O suicídio como vingança não pode ser desprezado, o suicídio como forma de denuncia do homicídio sofrido pela alma, o suicídio como fantasia de passagem para um novo começo. O suicídio como eutanásia de uma sensação de vazio incurável. A terapia/análise não é um processo de extirpação de um tumor, é um processo de debridação/drenagem de um abcesso, em determinado momento, durante este processo, o aspecto da lesão pode parecer mais feio do que antes de mexer nele.

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Quando se sobrevive a toda dor, olha se para o futuro, não, o passado não é esquecido, mas se conquista uma visão mais adequada sobre ele. Esquece-se dos excessos. A desesperança, os pesadelos e o vazio dão lugar à esperança e a novos sonhos e, sim, também a novos medos, mas a medos protetores e não condenatório-paralisantes.
Novos investimentos afetivos são viáveis, entregar-se a possibilidade de amar não ameaça mais. Não se precisa ter certeza que dará certo, pois se não der já se sabe que se sobrevive. Interessante que ao sobreviver viabiliza-se um investimento no viver ao invés de simplesmente sobreviver. Apropria-se da construção e da responsabilidade pela sua vida. A ideia do “não vou sofrer” é a esperança que agora se pode enfrentar novas intempéries sem o risco de ficar igual. Passar pelo processo – dor/angústia/terapia/análise – deixa como herança a conquistas de novos instrumentos mentais e a certeza que sempre há um albergue/terapeuta/análise que podemos recorrer quando novas tempestades ameaçarem/danificarem o telhado da nossa mente/casa.

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Sobre Hemerson Ari Mendes

Psicanalista (Sociedade Psicanalítica de Pelotas – Febrapsi - IPA), médico psiquiatra (UFPel), mestre em saúde e comportamento (UCPel). É diretor da Clínica Ser e durante 18 anos foi professor de Psiquiatria e Psicologia Médica na Faculdade de Medicina UCPel, atualmente, licenciado. Sim, também, disgráfico.

Publicado em 11/11/2012, em Psicanálise e psiquiatria, Saúde e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. olga Argout

    Sábias palavras…

  2. Rossana Mattar

    Excelente texto!! Como sempre me identifiquei. O passado estara sempre presente em nossas vidas, mas com a esperanca de novos dias ,novas amizades, amores e objetivos. Se assim nao fosse estaria viva, porem catatonica, sem esperanca. Gracas a Deus a esperanca nos propulsiona a tentar novas coisas e acreditar q nada esta perdido e que a gente ,mesmo com ajuda, sem ajuda, como for possivel chegaremos la, em uma vida q traga um minimo de paz, alegria e o aconchego do nosso ninho. Obrigada Ari. (nao repare q meu computador nao tem acento).

  3. mara rodrigues

    Lindo, emocionante,verdadeiro! Meu caminho é de pedras, como posso sonhar? Estou só e não resisto, muito tenho o que falar! Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer, vou seguindo pela vida me esquecendo de voce. (?)

  1. Pingback: O que é ser psiquiatra/psicoterapeuta | Disgráfico

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